quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Para Alice, sobre os dias

Imagem: Daniela Delias

ainda guardo aquelas flores 
sobre os cabelos

as rosas, alice
brutas, vermelhas
ternamente dispostas
sobre a lâmina dos dias

há você, eu sei
esse brio de pétala e espora
esse peito arma de fogo
esse rumor de alimento
e tempestade

mas vêm de meus olhos
o aço o gume a folha
a língua leve e vítrea
a letra atada à tua boca

é de meus olhos, alice 
que se esconde a noite

sábado, 4 de outubro de 2014

Sopro


Google - sem informação de autoria

alice sopra palavras em meus olhos
como quem soprasse um cílio
que se desse desarmado
à leveza do sobressalto

alice move um lábio sobre o outro
estende uns dedos de seda
sobre minhas carnes e cortes

depois sopra em meus olhos
a palavra devoção

sábado, 27 de setembro de 2014

A rosa

Google - sem informação de autoria


alice dispõe de mim
uma rosa vermelha, sonora
uns olhos de engendrar ternuras
sobre a descostura das coisas

feito pétala que se desprendesse
do zelo ardiloso de outras pétalas

e num voo furioso e lento
acordasse de vez o rio

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A manhã



a língua da serpente
ainda toca teu ouvido

conta, alice
o que dizem os deuses
sobre tudo o que não digo?

virá do céu em teus olhos
a manhã que brada por meus punhos?

é noite, ainda

agora só precisamos cantar
e vigiar o fogo

domingo, 31 de agosto de 2014

A noite

Imagem: John Kamke

impossível medir o tempo
por essas florações

já bebemos nossos mortos
já ruímos nossas casas
já lambemos o escuro

tudo dorme
e Alice ainda canta

domingo, 24 de agosto de 2014

Plátanos

Google - sem informação de autoria

não é difícil chegar

à frente, três lâmpadas acesas
uma cerca de folhas clandestinas
uma sede sem hora sem nome

estamos aqui, Alice e eu
abraçadas ao silêncio
acenando entre os plátanos

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Armadilha

Google - sem informação de autoria

é sempre outro tempo

foi o que disse
quando o olhei nos olhos
e decretamos nula
a história do corpo

e aqui está você:
âncora e balão
herdando o mesmo peso
passo e encruzilhada
habitando as mesmas horas

mas o que pode o peso
contra seu corpo-pássaro?
o que podem as horas?

repare no tempo, Alice,
repare na armadilha:

ele passa
e sequer existe.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Cordilheira

Monte Aconcágua, Andes argentinos - sem informação de autoria

tudo em você é destino:

a arquitetura dos labirintos
a linha indivisível do meio-dia
a palavra cordilheira
tomando o chão das coisas

tudo em você é cume e partida,
fuga de Dédalo, asas de Ícaro.

mas destino, Alice,
não é um lugar.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Nômade


Google - sem informação de autoria


"... ao sudoeste do teu sonho uma dúzia de anjos de pijama urinam com
transporte e em silêncio nos telefones nas portas nos capachos
das Catedrais sem Deus."

Roberto Piva


veja você: 
nômade, desarticulada,
ossos carcomidos pelo frio,
o passo impossível 
entre o trem e a plataforma.

não há teto que ampare
tanta desmesura, alice.

seus deuses, mais que os meus,
não cantam nas catedrais.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Candeeiros

Fotografia: Daniela Delias



são luas os olhos de Alice,
dois candeeiros, janela e rio
beirando outros rasos d’água.

viver é atravessar.

domingo, 6 de julho de 2014

Correspondências

Garota no Espelho (Pablo Picasso, 1932)


seus olhos tão escuros
quase bastam à noite

mas não vem de você o sopro
que me devolveria às asas
nas horas mais delicadas

era essa, Alice,
a sua ideia de amor?

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A senhora espera ao lado

Imagem: Daniela Delias


Essa é você, Alice, esperando o voo. Seus olhos engolem as setas, as placas, o luminoso. 1210, dozedez, do-ze-dez. Não erre o portão, não perca a hora, não me esqueça. O céu está limpo, suas mãos também. Los ãnos pisan, diz a estranha. Que dices, señora? Los ãnos, ellos pisan. Você não ouve, não entende. São tantos pés indo e vindo e sumindo. E essa é você, Alice, desesperando pousos. Seus olhos guardam as malas, a estranha, o luminoso. 1210, dozedez, do-ze-dez, não se perca. Pisam ou pesam, senhora? Pisan, niña. Com pés cansados como os seus. 


sábado, 21 de junho de 2014

Lavoura

Google - sem informação de autoria


el niño virá em setembro
e quando molhar meu colo
esquecerei teu nome

o frio castiga teus dedos
e você não sabe quão quentes
as águas do pacífico

mas eu sei, minha Alice
você também canta a espera
você também o deseja

como se flor 
colhesse suas chuvas

como se sede 
bebesse em suas mãos

terça-feira, 17 de junho de 2014

Azul


Navio Altair (1976). Praia do Cassino, Rio Grande.
Imagem: Carlos Matheus


você mapeia os naufrágios
com o azul mais delicado.
não toma uma cor por outra,
a palavra pela coisa.

lave meus olhos, Alice.
antes de ir, lave esses olhos
tão cheios de tudo.

há mais sobre o mar, eu sei,
e você precisa me dizer,

mas não agora.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Herança

Google - sem informação de autoria

Para Vó Luísa


dor é herança, você diz
e eu penso nos longes
dos olhos de minha avó

dê a ela de beber, Alice
à dor que roçar seus lábios
dê de beber

porque só em seu copo
nas entremarés do corpo
bebemos o sal e o doce
das coisas não nascidas

domingo, 8 de junho de 2014

A pedra

Google - sem informação de autoria


o homem dorme seus medos
sobre os caudais de Alice

não vê a pedra que fere 
a grandiloquência de sua língua

não vê que ela acorda seus mortos 
quando entre um rio e outro
desova-se viva


sexta-feira, 30 de maio de 2014

Ágata

Google - sem informação de autoria


com dedos ligeiros, os teus
digo a ele: amanhã, amor

a água da noite ainda pesa
o azul do copo de ágata
mas meus olhos, Alice
estão abertos sobre o mar

não era o que dizias?



sábado, 24 de maio de 2014

Alento

Google - sem informação de autoria

tenha o gosto da casca
do óleo quando amarelo
do fruto vermelho-brilhante

o tempo da flor
conte às avessas:
dê boa tarde se for dia
ou à senhora dê bom dia
porque desandasse a tarde

banhe-se das folhas
livre-se das febres
tome-a inteira

(às feridas, Alice
dê chá de aroeira)

domingo, 18 de maio de 2014

Partilha

Google - sem informação de autoria


vi o que fez dos ponteiros
e da rosa entre seus dedos
quando ele disse
gosto de ser seu amor

você e essa noite despedaçada
você e essas mãos de Alice
pálidas, suaves, díspares

presa à partilha dos dias
separando pétalas de horas

pondo tudo em caixinhas




terça-feira, 13 de maio de 2014

Primavera em Wuppertal

Pina Bausch - imagem sem indicação de autoria

el olor del jazmín y la madreselva,
el silencio del pájaro dormido,
el arco del zaguán, la humedad
— esas cosas, acaso, son el poema.

Jorge Luis Borges


claro que dançaremos, Alice
como se de dentro dos olhos do poeta cego
contemplássemos o Rio da Prata

como se eu e você
pisando as cidades dentro da cidade
mitigássemos a dor e a fúria
de toda delicadeza sitiada

é claro que dançaremos, Alice
com pés de Pina Bausch em Wuppertal
mas não diremos palavra

(não diremos, Alice,

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Os pés

Arquivo pessoal de Daniela Delias

ouve bem, alice,

não deste topo de mundo,
onde só a palavra amor,

mas anda, alice,
ouve, desce, anda,

percurso que é você.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Runas

Google - sem informação de autoria


por favor, Alice, traga
a chave o trinco a tranca

estou aqui, entre fotos e runas
devorando o leite das pedras
- aqui, onde ninguém mais.

você, Alice,
esta letra plena 
e suave.

(o amor, outra coisa.)



quarta-feira, 7 de maio de 2014

Prece

Google - sem informação de autoria



naquela noite, alice
dissemos tanto:
eu falava sobre os desertos
do gelo sobre as tulipas

livre-nos de suas mãos, você disse
dos sorrisos velados e ocos
de suas matrioskas tristes

depois, mordeu meus lábios
como se existíssemos


terça-feira, 6 de maio de 2014

O canto


Imagem retirada do site: http://coamajlle.blogspot.com.br/


o que virá, alice,
da palavra não dita?

não esta fúria suave
de espora cravada
em meu flanco

não este canto quieto
de saí-azul atravessado
em minha garganta

só você, alice,
esse leito de rio
fincado de pedras
esse pássaro rouco
deixado à minha porta

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Excessos

Google - sem informação de autoria



não há um lugar
para os seus exércitos

não é a chuva, Alice
as flores nesta casa
excedem há mais tempo
que eu, a tormenta e você

é preciso que eu repita:
há coisas que só crescem
do lado de dentro


domingo, 4 de maio de 2014

A pálpebra

 Imagem retirada do site http://www.portalcursos.com/


alice, meu bem:
eu não sou você

eu imagino o peso
você lambe o gozo

e tudo o que não dizemos
depõe sobre a pálpebra
durante a queda.


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Ali

Arquivo Pessoal de Daniela Delias


um minuto, Alice.

é o tempo
d’eu engolir o mar,
d’eu molhar teus olhos.

ali, Alice,
onde nunca.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Fome

Google - sem informação de autoria


alice golpeia a fera
crava em seu peito
uns dentes e fomes
e nada e nada e nada

alice deseja a fera

três tigres tristes,
- repete, digladiada.

escorre a palavra
fremente, diáfana

ao vê-la ali
partida